Terça-Feira , 12 Novembro 2019
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Entre as sessões do tratamento na Clínica de Hemodiálise Senhor do Bonfim, na Cidade Baixa, alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede municipal de ensino falam de experiências e sentimentos. E essas histórias resultaram em uma coletânea em forma de livro, editado pela Escola Hospitalar e Domiciliar Irmã Dulce, sistema que atende estudantes da rede municipal regularmente matriculados e que, por conta de alguma enfermidade estejam impossibilitados de assistirem às aulas no dia a dia, e que não querem perder o ritmo de ensino, mesmo estando hospitalizados.

A coordenação da iniciativa ficou sob a responsabilidade da professora Zenaide Malaquias, da Escola Municipal Hospitalar, que escutou cada história e procedeu com a edição do trabalho. “Contar uma história ou pedir para os alunos recontarem, por meio de um desenho ou da oralidade não seria o suficiente. Por isso, sempre antes de começar a aula, procuro saber como foi o dia deles. Dessa forma, além de professora me torno amiga, companheira, alguém que eles confiam. E foi assim que tive a ideia de fazer o projeto a partir da história de vida de cada um deles”, explica.

A iniciativa é voltada a alunos da EJA, na faixa etária de 40 a 75 anos, e ocorre entre duas e três vezes por semana, quando ocorrem as sessões de hemodiálise. De acordo com a professora, muitas vezes, as pessoas não estão bem física e nem psicologicamente, em consequência do procedimento médico. “Percebi que quando abro para eles me contarem sobre como estão se sentindo, sempre contam casos da vida deles, trazem comparações com coisas do passado. Foi ai que percebi que falar da própria vida os atraía para a aula”, prossegue a educadora.

Método - As histórias contadas foram redigidas por ela exatamente do modo que os alunos falavam. “Sentei com cada um dos alunos para fazermos a correção em relação à pontuação gramatical, construção textual e tudo mais. Teve aluno que só contou uma, enquanto outros chegaram a me falar até quatro histórias. Depois esses relatos começaram a circular entre os demais alunos da turma. E foi através dessas narrativas que também fomos trabalhando interpretação, gramática, substantivos masculino e feminino, plural, singular, classificação de palavras quanto ao número de sílabas, bem como gráficos, distância, tempo, temperatura, dentre outros”, detalha.

A coletânea das histórias foi lançada na Mostra Pedagógica 2018, ocorrida no mês de outubro. De acordo com a coordenação da ação, o nome de cada aluno consta em uma página que abre a coletânea, mas nas histórias não há qualquer identificação para que eles não se sintam constrangidos, já que cada aluno irá receber, no final do ano letivo, um exemplar da publicação.

Lindaura Paula dos Santos, 60, aluna da instituição, faz hemodiálise há um ano e é um exemplo dessa esperança despertada pelo projeto. Ao chegar à instituição ela mal sabia ler. “Foi muito bom contar minha história. Tem noite, inclusive, que eu não durmo: leio, releio... é uma delícia. Já coloquei meus filhos, marido, a vizinha, todo mundo para ler. Eu sabia ler muito pouco, e a professora é como um anjo para a gente”, resume.

Classes Hospitalares - A Escola Municipal Hospitalar e Domiciliar Irmã Dulce, pioneira no país, foi inaugurada em 1º de outubro de 2015, e é fruto do projeto Classes Hospitalares, promovido desde 2001 pela Secretaria Municipal da Educação (Smed) em 16 instituições de saúde e casas de apoio, além do atendimento em domicílios.

O trabalho da escola é realizado em ambiente hospitalar e domiciliar, compostas por casas de apoio, residências e casas-lares, prestando atendimento a crianças, adolescentes, jovens e adultos em processo de tratamento de saúde ou internamento hospitalar. O objetivo do trabalho é promover um processo educativo que assegure o direito à vida e à saúde, estimulando o processo de escolarização da clientela hospitalizada, voltada para a redução do nível de atraso escolar e, consequentemente, a evasão.

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